2019-10-10

Apelar ao esforço sem negligenciar o talento!


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No último jogo do Atlético Madrid diante do Valladolid, João Félix tocou apenas três vezes na bola nos últimos 25 metros do terreno, até ser substituído aos 60 minutos de jogo. Segundo o jornal 'Ás', "esteve mais preocupado em travar as investidas adversárias do que em criar perigo". Isto é bem elucidativo do papel que Diego Simeone lhe tem atribuído na equipa 'colchonera' e que em grande medida explica o seu rendimento cinzento e inconsistente, pese embora alguns laivos de brilhantismo.

O mesmo se tem passado, por exemplo, com Shoya Nakajima no FC Porto. O japonês tem um talento enorme. É tão bom que não é acessível a toda a gente. Mas precisa de ser compreendido. Precisa de um treinador que lhe tente sacar as suas maiores valências e disfarçar os seus pontos menos fortes. Precisa de um modelo de jogo onde seja possível tocar muitas vezes na bola nos últimos 25 metros, de preferência com vários colegas à sua volta com quem se possa associar. Precisa de estar mais preocupado em criar perigo para o adversário através da criação de jogadas ofensivas que em tentar travar os ataques do adversário.

Simeone e Conceição são treinadores rígidos nas suas ideias. Cada jogador tem determinadas tarefas consoante a posição em que jogue (pelo menos no plano defensivo), independentemente das características individuais de cada um. Isto é um erro, na minha opinião. Não se pode pedir a Nakajima a mesma intensidade no pressing que se pede a Marega, por exemplo. Não tem nada a ver com compromisso ou atitude. É simplesmente uma questão de características. Como não posso pedir a Félix que dê a mesma disponibilidade para correr atrás dos adversários que Correa dá. Não é o seu ADN! Mas posso pedir a Nakajima e Félix que se posicionem entre-linhas e inventem soluções em espaços reduzidos, desde que a equipa esteja lá para os acompanhar. Posso-lhes pedir que baixem em apoio num espaço interior e isolem um colega que dispare em ruptura. Posso-lhes pedir critério, paciência e qualidade em posse, dando à equipa momentos de descanso com bola. A Marega ou Correa já não seria inteligente pedir este tipo de coisas.

Os jogadores têm as suas características particulares. É dever do treinador tentar extrair o melhor de cada um deles e não lhes pedir coisas que eles dificilmente poderão dar. E depois fazer uma avaliação entre o que se ganha e perde com cada um, fazer uma relação deve/haver. Ok, Nakajima não me dá aquela intensidade na ocupação de espaços que se pretende sem bola, mas a criatividade que ele me concede com bola não compensa tudo o resto? Ok, Marega parece um cão raivoso sem bola e parece o Bolt a atacar a profundidade, mas será que compensa os lances que se perdem devido a insuficiências técnicas e fraca compreensão do jogo?

O trabalho do treinador requer, na minha opinião, flexibilidade, abertura, adopção de diferentes nuances dentro da mesma identidade, que vá de encontro aos recursos que tem em mãos. Não se pode pedir algo aos jogadores que as suas caracteristicas não contemplam. Não é inteligente, é contraproducente!

Leo Messi pura e simplesmente não defende ou defende muito pouco. Passa os jogos a andar na hora de recuperar ou organizar defensivamente. Algum treinador ousa dizer-lhe que ele tem de se esforçar mais nesses momentos? Algum Simeone ou Conceição teria a coragem de retirá-lo da equipa? É evidente que não, o que ele dá no momento ofensivo é tão superlativo e tão valoroso que o seu défice no momento defensivo se torna insignificante. É trabalho do treinador preparar o colectivo para defender tendo em consideração a quase nula participação de Messi. Ou Ronaldo. Ou Neymar. Ou Hazard. Salvaguardas as devidas distâncias, Félix e Nakajima têm obviamente de participar no processo defensivo. Mas não lhes peçam para, nesse momento, serem Correa ou Marega.

Ninguém está a comparar João Félix a Nakajima e muito menos qualquer um destes a Messi ou Ronaldo. Nem Marega a Correa. É apenas para transmitir a ideia de que um jogador é um conjunto de pontos fortes e pontos fracos e que a avaliação que deve ser feita é se o saldo é positivo ou negativo em termos colectivos, englobado numa determinada ideia de jogo e, já agora, se essa ideia de jogo é ajustada a que os esses pontos fortes apareçam e os fracos se camuflem. Aquilo que me parece é que há treinadores que valorizam muito mais a transpiração que a inspiração, o esforço que o talento, quando o ideal seria valorizarem e enquadrarem o talento, apelando ao esforço que esse talento pode dar, sem o negligenciar...

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