2019-04-01

Legends: Eric Cantona - O Bad Boy francês que conquistou Inglaterra


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Hoje trago aqui ao burgo Eric Cantona! Era excessivo, inconstante, tinha a centelha que abençoa os génios, entrava em campo com a concentração com quem iria passar um dia na praia, tinha a leveza de um bailarino e a rudeza de um estivador do porto de Marselha, mas uma vez com a bola nos pés, era imbatível, ganhava jogos sozinho, não se escondia e assumia sempre a responsabilidade de desequilibrar as partidas em proveito da sua equipa. O seu temperamento, irascível, conflituoso, deixou marcas no campo, nos adversários, nos equipamentos e até em alguns espetadores. L'Enfant Terrible, o Bad Boy marselhês, não fazia prisioneiros, como se convencionou dizer. Com ele não havia meio-termo e nunca foi de levar desaforos para casa.

Ao lado dos seus inúmeros feitos desportivos, há um rol de inglórias suspensões, castigos, lesões e problemas profissionais, que impediram Cantona de ser efetivamente aquilo que ele era, um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos. Esse falhanço foi fruto do seu mau génio de onde lhe advinha a insubmissão e a indisciplina, tudo o que impediu de brilhar em todo o seu esplendor, de conquistar uma competição europeia ou jogar um Campeonato do Mundo.

Os primeiros sinais dos seus lendários "maus fígados" surgiriam já em Marselha, depois de ter sido transferido do Auxerre, quando após ter sido substituído num amigável com o Torpedo de Moscovo, rasgou e tirou os calções e atirou-os ao chão em direção do banco. A direção do Olympique Marselha castigou-o com alguns dias sem poder treinar e jogar. Na mesma altura insultava o selecionador nacional durante um programa de televisão e era castigado pela Federação e impedido de vestir a camisola francesa, que só voltaria a usar quando Michel Platini se tornou treinador dos gauleses. Pouco depois seria emprestado ao Bordéus, onde ficou pouco tempo, sendo emprestado entretanto ao Montpellier, ao serviço do qual teria uma época de sucesso que culminou com a conquista da Taça de França. No ano seguinte regressou ao Olympique Marselha, mas após uma arreliadora lesão que o manteve afastado dos relvados foi emprestado ao Nimes.

Rumou então, algum tempo depois, a Inglaterra, o país que adoptou como sua Pátria a partir daí. Começou no Sheffield Wednesday, onde só ficou uma semana, insatisfeito por ser posto à prova. Mudou-se para Leeds, onde com a camisola do United debutou na pátria do futebol. O ano no Leeds United foi ambivalente, se por um lado conquistou o título e chamou a atenção da imprensa com as suas exibições, por outro lado, a sua inconstância custou-lhe a titularidade na equipa e viu assim, ser-lhe aberta a porta da saída...

Alex Ferguson, o treinador do Manchester United, aproveitou e foi buscar o francês aos campeões, ciente que estava que Cantona seria uma das pedras angulares do seu United campeão que estava a construir. O mago escocês não se enganou, e o avançado francês, juntamente com Schmeichel, Giggs e companhia, ajudaria a escrever o ressurgimento dos red devils como potência número um do futebol inglês. Ainda antes de passar para Manchester foi convocado por Platini e partiu para a Suécia para jogar o Euro 1992. Apesar dos maus resultados e da França ficar pela primeira fase, o internacional gaulês foi eleito para o onze da competição.

Com a camisola dos red devils, Cantona iniciou o período áureo da sua carreira, conquistando campeonato sobre campeonato, tornando-se o mestre da orquestra de Ferguson. Depois de ter sido campeão no Leeds em 1992, ajudou o United na conquista do primeiro campeonato desde 1968. Campeão em 1993, 1994, 1996 e 1997, Cantona era sinónimo de sucesso em terras inglesas. Pela primeira vez um francês brilhava do outro lado do Canal, e os nacionalistas adeptos do Manchester não tinham pejo em entoar cânticos para a sua estrela gaulesa. Em Old Trafford, os red devils demonstravam o seu amor começando a cantar: "Allons enfants de la Patrie, Le jour de gloire est arrivé!", os primeiros versos da "Marselhesa"... E que maior prova de amor poderia Cantona encontrar dos adeptos, que estes entoarem o hino do velho rival da Inglaterra em sua honra? Os sucessos continuavam, e era premiado com o prémio de melhor jogador da Premier League em 1994, para coroar a época onde o United tinha conquistado o triplete: Premier League, Taça de Inglaterra e Supertaça.

Entretanto, o United deixou escapar o título de 1995 para o Blackburn Rovers, e Cantona não ficou de todo isento de culpas, pois a 25 de janeiro, num jogo em Londres, contra o Crystal Palace, foi expulso depois de pontapear um adversário. Mas o pior estava para vir, pois quando caminhava para os balneários, reagiu mal às "bocas" de um adepto e pontapeou-o com um pontapé de Kung fu, a que se seguiram alguns socos. Numa conferência de imprensa, algum tempo depois, terá feito a mais enigmática (e famosa) declaração da carreira. Perante uma sala cheia de jornalistas, lenta e convictamente afirmou: "Quando as gaivotas seguem as traineiras, é porque acham que vão atirar sardinhas ao mar. Muito obrigado a todos!" Levantando-se de seguida, e abandonando a sala onde deixou uma plateia atónita e de boca aberta. Pouco depois seria detido e acusado de agressão, com uma pena de duas semanas de prisão. Acabaria por ver a sentença ser alterada para 120 horas de trabalho comunitário. Desportivamente foi suspenso pelo Manchester United até ao final da época, mas pouco depois a FA acabaria por suspendê-lo por oito meses. Esteve perto de abandonar o futebol, ou de sair de Inglaterra, mas Ferguson convenceu-o a esperar pela época seguinte, para voltar a vestir a camisola do United.

Regressado, voltou aos títulos, mas não conseguiu convencer Aimé Jacquet, que o deixou fora dos convocados da França para o Euro'96, e mais tarde para o França'98. Insatisfeito, abandonou prematuramente o United e o futebol em 1998, dedicando-se à carreira de actor - chegando a participar em "Elizabeth", ao lado da consagrada Cate Blanchet - que ia alternando com a sua nova paixão pelo futebol de praia, onde além de jogador, foi treinador da seleção francesa.  O "Rei" ainda hoje é aclamado na monárquica Inglaterra, enquanto a sua natal e republicana França nunca fez a justiça ao seu génio. Magoado, Eric Cantona devolve na mesma moeda a indiferença dos seus compatritotas, denegrindo sempre que pode o seu país em comparação com Inglaterra, alimentando sempre um pouco mais, a relação de "amor-ódio" que mantém com o seu país-natal.

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